A guerra moderna : a contra-insurgência como prática equivocada

Edward N. Luttwak

Abstract


Meu tema é o impasse em que se encontra o poder militar nos dias de hoje. As forças armadas modernas continuam estruturadas para a guerra de grande escala; entretanto, nas sociedades adiantadas, os pequenos núcleos familiares não estão dispostos a enviar seus filhos homens para a guerra e nem aceitam que estes se transformem em vítimas, ainda que sejam vítimas de guerra. Os americanos contam suas baixas no Iraque com grande pesar – baixas estas que em três anos ainda não chegam a 3.000 – um número inferior ao de baixas sofridas em apenas um dia de combates em diversas guerras do passado. Essa recusa em ceder o sangue que alimenta as batalhas felizmente diminui a probabilidade de que essas sociedades avançadas entrem deliberadamente em conflito umas com as outras (‘pas des enfants, pas de Suisse, pas de guerre’), exceto quando se acredita que uma guerra possa ser inteiramente ou em grande parte aérea e naval, pois essas forças que utilizam muito mais os equipamentos que o pessoal para combater podem realmente ser empregadas commenos baixas. Mas guerras desse tipo são difíceis de imaginar, a não ser no caso de serem travadas em ilhas, como é o caso da guerra entre a China e Taiwan, o que é pouco provável por várias razões. As forças aéreas e navais certamente podem ser empregadas com vantagem contra qualquer inimigo menos adiantado e imprudente o suficiente para confiar em uma defesa convencional conduzida por forças regulares; entretanto, também nesse contexto, deve haver sérias dúvidas sobre a real utilidade de países adiantados que não toleram baixas continuarem a empregar forças terrestres.

Não restariam funções verdadeiras para as tropas terrestres de um país, após este haver bloqueado o inimigo com facilidade, bombardeado com sucesso todos os pontos nodais certos para cortar as redes de eletricidade, transportes e comunicações, feito ataques aéreos suficientes para interromper pistas de pouso e decolagem, destruir aeronaves abrigadas ou não, mísseis balísticos, instalações nucleares, caso existam, afundar navios de guerra e derrotar quaisquer forças mecanizadas posicionadas a céu aberto, como os EUA fizeram com o Iraque em 1991 e parcialmente em 2003, e como poderiam fazer com o Irã. As únicas funções que restariam seriam as de expulsar o inimigo dos territórios que ocupasse ou de ocupar seu próprio território. Mas isso poderia causar baixas que talvez não fossem toleradas e provocar uma revolta.

Caso isso ocorresse, as forças navais não poderiam ser de muita utilidade, pois essas revoltas raramente têm uma dimensão marítima importante (o caso do Sri Lanka é uma exceção) e mesmo as operações ribeirinhas, de um modo geral, são secundárias. As forças aéreas podem exercer papel de vigilância e transporte, mas os alvos dos insurgentes dificilmente são estáveis ou contrastam o suficiente para possibilitar sua identificação e localização e um ataque aéreo eficaz. Consequentemente, quase tudo fica a cargo das forças terrestres e, quando o ataque avançado for menos avançado, essas forças terão ampla vantagem em termos de poder de fogo, mobilidade e coerência operacional. Mas elas tampouco terão um inimigo visível contra que lutar, de modo que os métodos operacionais normais e as táticas da guerra convencional não poderão ser aplicados. Existem métodos e táticas alternativas para a guerra de contra-insurgência, mas será que estes realmente funcionam? Os revoltosos nem sempre vencem; na verdade, geralmente são derrotados. Porém suas derrotas raramente podem ser atribuídas à guerra de contra-insurgência se comparada a outros meios que veremos mais adiante.


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